terça-feira, 15 de julho de 2014

Mini-entrevista a Gonçalo M. Rosa - Biólogo DICE, University of Kent (RU); IoZ, Zoological Society of London (RU); CBA, FCUL (PT).


A&R de Portugal - Qual é o ponto de situação em relação às doenças emergentes que se têm tornado graves ameaças a populações de anfíbios um pouco por todo o mundo?
Gonçalo M. Rosa - Cerca de um terço de todas as espécies de anfíbios estão ameaçadas de extinção e muitas outras enfrentam graves declínios populacionais. A perda de habitat é a principal causa deste declínio, mas há uma preocupação crescente em torno da ameaça representada pelas doenças infecciosas.
Alguns agentes infecciosos têm causado doenças estando estas associadas a declínios e extinções um pouco por todo o mundo. Neste campo destacam-se as quitridiomicoses e as ranaviroses como as enfermidades de maior impacto. Outras doenças podem também ser responsáveis por mortalidades massivas em comunidades de anfíbios, embora o conhecimento global sobre os patógenos e sua dinâmica seja ainda escasso: é o caso, por exemplo, do Amphibiocystidium (agente causador de dermocistidiose), da Aeromonas hydrophila (uma bactéria causadora de "Red-leg disease", doença da perna vermelha), e outras bactérias da família Chlamydiaceae capazes de infetar anuros e caudatas.

A quitridiomicose é uma doença infeciosa causada por fungos microscópicos do género Batrachochytrium, e a primeira intimamente ligada a declínios e extinções de centenas de espécies de anfíbios. É a doença que mais atenção tem gerado e, até à data, são conhecidos dois agentes capazes de conduzir à infeção: o quitrídio-dos-anfíbios (Batrachochytrium dendrobatidis, Bd), e o recentemente descrito, quitrídio-das-salamandras (B. salamandrivorans, Bs). A grande mortalidade ocorre nos primeiros dias após a metamorfose, quando os indivíduos terminam o estádio larvar e dão início a uma nova fase do ciclo de vida em ambiente terrestre... acabando a maioria por não chegar a sair das margens dos charcos. O fungo instalado na pele, afecta a respiração cutânea destes anfíbios bem como o equilíbrio hídrico, podendo eventualmente levar a uma paragem cardíaca.

Segundo a IUCN, este fungo tem o potencial de causar declínios populacionais massivos numa questão de semanas, tendo conduzido já a extinções, não só de populações mas também de espécies, com o primeiro caso de infeção com Bd na Europa a ser registado em 1997 na serra de Guadarrama, em Espanha.

Em Portugal, a presença de Bd foi pela primeira vez detectada em 2005. No entanto, os primeiros sinais do impacto do fungo só foram registados no ano de 2009 na Serra da Estrela, onde centenas de sapos-parteiro-comuns (Alytes obstetricans) recém metamorfoseados foram encontrados mortos à beira de uma lagoa.

Ainda na Serra da Estrela, foi detectado um ranavírus na população de lagartixa-da-montanha (Iberolacerta monticola). O ranavírus parece ter evoluído a partir de um vírus de peixes que, posteriormente, se tornou capaz de infectar anfíbios e répteis. Este patogénio é agente causador de ranavirose, cujos sintomas passam por vezes por um avermelhamento da pele, em particular sobre as patas traseiras. Outros dois indícios são a ocorrência de hemorragias interna e ulcerações na pele, podendo os animais sofrer uma ou ambas.

Alguns estudos indicam que estirpes do vírus encontradas na Europa poderão estar relacionadas com o mesmo vírus encontrado em rãs e salamandras norte-americanas, podendo estas ter sido introduzidas com anfíbios ou peixe de água doce não-nativos importados. Este é o caso de populações de rã-touro-americana (Lithobates catesbeianus) introduzidas em França e Bélgica, onde este agente infecioso se encontra presente.

Sapo-parteiro-comum (Alytes obstetricans) morto, vitima
de quitridio-dos-anfíbios durante a fase final do processo
de metamorfose. (Gonçalo M. Rosa - Serra da Estrela)

A&R de Portugal E que cenário encontram as populações em Portugal?

Gonçalo M. Rosa - O estudo de doenças em anfíbios é uma área relativamente recente, particularmente em Portugal, onde poucos são os registos existentes sobre os seus impactos em populações selvagens.
No ano de ‘98, centenas tritões-marmoreados (Triturus marmoratus) foram encontrados mortos numa lagoa do Parque Nacional da Peneda-Gerês. Os indivíduos apresentavam os sinais típicos de uma ranavirose (com lesões na pele e hemorragias espalhadas pelo corpo), embora a confirmação tenha surgido apenas em 2008, com o auxílio de métodos moleculares.

Quanto ao quitrídio-dos-anfíbios (Bd), como referido anteriormente, a sua presença fez-se notar com grande impacto na Serra da Estrela, deixando para trás um rasto de morte e um vazio enorme na magnifica paisagem de montanha. De acordo com registos e relatórios relativos à década de 90, o sapo-parteiro-comum era uma das espécies de anfíbios mais abundantes. Em certos pontos de água na zona do Planalto Superior era possível contarem-se milhares de girinos de grandes dimensões!

As populações da Serra têm sido desde então acompanhadas com regularidade e os primeiros resultados foram entretanto publicados na revista Animal Conservation, ilustrando uma perda de quase 70% da área de ocorrência da espécie, estando a sua reprodução confinada a 16% dos locais sinalizados no passado. Este é o primeiro evento documentado de declínio de um anfíbio em Portugal mediado por uma doença infeciosa.

No entanto, enquanto algumas espécies são vítimas de um declínio acentuado, próximo de uma extinção local, outras parecem persistir sem serem (aparentemente) afetadas, ainda que seja possível detectar o agente patogénico com níveis baixos de infecção. Assim, e embora não totalmente entendida razão, a susceptibilidade dos hospedeiro é altamente variável entre espécies mas também dentro da mesma espécie.



Gonçalo M. Rosa durante o trabalho de campo, a recolher
uma amostra de água de um charco na Serra da Estrela.

A&R de Portugal - Em suma, que riscos correm as nossas espécies?
Gonçalo M. Rosa - Os anfíbios desempenham um papel essencial no ecossistema, posicionando-se no meio da cadeia alimentar. Milhares de girinos invernantes, de grandes dimensões, num charco ou numa ribeira, representam uma parte considerável da biomassa e são um recurso nutricional para um elevado número de espécies, desde invertebrados a serpentes e aves.

Estes novos dados colocam as populações de anfíbios de altitude, em particular o sapo-parteiro-comum, em estado crítico. Dada a semelhança deste caso com o cenário na serra de Guadarrama, prevê-se que nas zonas mais altas da Estrela, a população possa sofrer uma redução ainda maior. O acompanhamento e monitorização destas populações é essencial para a sua conservação, gerando um conhecimento mais aprofundado da dinâmica e evolução das doenças e a forma diferencial como afetam as espécies, permitindo assim ações de mitigação mais eficazes.

Lidar com a crise que este frágil grupo enfrenta representa um desafio crucial para os gestores da vida selvagem, e levanta uma necessidade urgente de otimização das estratégias de conservação. Para além da componente de investigação a ser levada a cabo *, é essencial uma boa comunicação entre as partes envolvidas na conservação, bem como uma boa divulgação e sensibilização junto das pessoas, para que a falta de conhecimento não seja desculpa para a perda da nossa incrível biodiversidade.


Tritão-marmorado (Triturus marmoratus) infectado
com Ranavirus. (Gonçalo M. Rosa)

* caso o leitor se venha a cruzar com um cenário de mortalidade massiva nos seus passeios pela Natureza, incentivo a que faça uma boa reportagem fotográfica e me contacte de imediato (goncalo.m.rosa@gmail.com).