terça-feira, 8 de setembro de 2009

Mini-entrevista a Pedro L. Moreira - Biólogo FCUL

A&R de Portugal - A Lagartixa da montanha (I. monticola) é um endemismo ibérico, que ocorre em ambientes rochosos, principalmente em alta montanha. Existe em duas regiões afastadas geograficamente a Cordilheira central e a Cordilheira cantábrica, e mesmo dentro destas regiões existem várias populações isoladas, pois estas zonas de altitude acabam por funcionar como ilhas. Como explica a distribuição desta espécie? Esta distribuição tão descontinua poderá levar a que as diferentes populações se tornem espécies diferentes?

Pedro L. Moreira - As lagartixas da montanha (por simplicidade, designo ‘lagartixas da montanha’ as várias espécies do género Iberolacerta) apresentam uma distribuição geográfica muito fragmentada: diversas populações com distribuições reduzidas encontram-se geograficamente afastadas entre sí. Na Península Ibérica, estão descritas três espécies nos Pirinéus (I. bonnali, I. aranica e I. aurelioi), duas espécies no Sistema Central Espanhol (I. martinezricai e I. cyreni), uma espécie nas montanhas da Sanábria (I. galani) e uma espécie (I. monticola) com distribuição mais extensa que inclui populações no Noroeste de Espanha (Cordilheira Cantábrica e Galiza) e Portugal (Serra da Estrela). Algumas espécies ainda estão diferenciadas em várias subespécies, prefazendo-se um total de nove espécies e subespécies de lagartixas da montanha Ibéricas. No centro da Europa (Croácia, Eslovénia, Itália e Áustria) está descrita outra espécie (I. horvathi). As lagartixas da montanha ocorrem, em geral, em habitats rochosos de montanha e estão, frequentemente, confinadas aos picos montanhosos mais elevados.
Estudos genéticos recentes sugerem que as populações de lagartixas da montanha Ibéricas, e suas distribuições geográficas, são muito ancestrais. A diferenciação genética entre as espécies do género Iberolacerta ter-se-á iniciado à 7.2 ± 2.2 milhões de anos (Ma). Entre as espécies Ibéricas, as três lagartixas da montanha pirenáicas começaram a divergir entre sí à 4.2 ± 1.4 Ma. As populações da Serra da Estrela (I. monticola monticola), Sanábria (I. galani) e Penha de Francia (I. martinezricai) começaram a divergir à 2 ± 0.3 Ma e as populações das Serras de Gredos, Béjar e de Guadarrama (I. cyreni cyreni e I. cyreni castiliana) à 1.7 ± 0.3 Ma. Estas populações terão estado confinadas aos mesmos sistemas montanhosos desde o momento da sua divergência genética e não há evidência de que tenham tido distribuições geográficas muito mais amplas que as actualmente observadas. A persistência das populações em alta montanha ao longo das diversas épocas glaciares terá estado simplesmente sujeita a variações nas suas distribuições altitudinais. Durante os períodos glaciares, em que extensas calotes de gelo terão coberto os principais sistemas montanhosos, estas populações terão persistido nas vertentes sul de menor altitude dos mesmos sistemas montanhosos. Uma situação diversa parece ter ocorrido com as populações da Galiza e da Cordilheira Cantábrica (I. monticola cantabrica). Estas populações têm uma origem mais recente e são geneticamente próximas da população da Serra da Estrela. A colonização da Galiza e da Cordilheira Cantábrica deverá ter ocorrido devido a uma expansão para Norte das populações da região da Serra da Estrela durante o aquecimento climático que sucedeu à última época glaciar, designada Würm e ocorrida à 100 000 anos. Quanto à fragmentação inicial das populações de lagartixas da montanha, com início à 7.2 ± 2.2 Ma, sugere-se ter sido motivada pela competição com as espécies do género Podarcis, as quais começaram a divergir geneticamente aproximadamente na mesma época, com início há cerca de 9 ± 1.5 Ma. As lagartixas do género Podarcis, mais adaptadas a condições de maior temperatura e secura, poderão ter excluido as lagartixas da montanha para habitats de maior altitude onde, desde então, têm persistido.